“A fronteira do meu mundo é a fronteira da minha linguagem” (Wittgenstein)
Segundo Aristóteles, somente o homem é um animal político. Isso porque os outros animais, ao contrário do homem, só possuem voz (phóne), mas não possuem palavra (lógos). Essa diferença faz com que somente o homem possa exercer um julgamento sobre o mundo (justo, injusto, bom, mal) e, por conseguinte, posicionar-se politicamente no mundo. Essa capacidade humana e somente humana torna a linguagem o elemento distintivo entre homem e animal e, portanto, tema de grandes discussões filosóficas.
Além dessa distinção entre homem e animal, a língua, nosso código social, por sua vez, é responsável pela distinção entre os homens. De uma maneira bem simples, enquanto a linguagem nos diferencia dos animais, a língua nos diferencia dos outros homens, também seres da linguagem, mas seres de outra língua. Isso acontece porque o mundo é palavra e, sendo assim, é propriamente humano e varia de acordo com cada língua. Esse pré-suposto que considera o mundo palavra nos remete a uma série de questões. A primeira delas diz respeito à origem do mundo.
Independentemente da crença de cada um, na bíblia, podemos encontrar algo parecido com isso: “então deus criou o mundo dizendo: faça-se!”. Se isso é uma verdade (lógica) ou se é um mito (narrativa mágica) não importa, a metáfora já produz seu efeito de sentido: o mundo é criado a partir das palavras e somente a partir dela podemos transformar o mundo. Isso porque, língua e linguagem em interação produzem sentido, produzem pensamento, raciocínio, fazem política e, assim sendo, podem, dentre outras possibilidades, transformar o mundo.
Tudo aquilo que conhecemos tem nome e aquilo que não tem nome, de certa forma, não existe. Não conseguimos pensar n’alguma coisa que não tenha um nome, ao passo que construímos pensamentos sobre aquilo que nos é conhecido. Quando aprendemos coisas novas, estamos inserindo na nossa linguagem novas palavras, novos significado, novos sentidos e novas possibilidades. É como se o nosso mundo aumentasse ou, melhor: é quando o nosso mundo, de fato, aumenta.
Em relação à filosofia, podemos pensar pelo mesmo caminho. Quando entramos em contato com uma teoria, com conceitos e idéias, à primeira vista, não entendemos nada. Mas, aos poucos, aproximando-nos devagarzinho do novo, começamos a apreender os conceitos, os significados e começamos a, a partir da palavra, estruturar novos pensamentos, por meio de uma nova linguagem. As tradições filosóficas são, portanto, uma maneira específica de ler o mundo; a teoria de tal autor ou autora é não só palavra, mas linguagem e, por tanto, compreende o mundo dando a ele nomes específicos.
Por conta disso tudo é preciso sempre estar atento, quando estamos discutindo conceitos e idéias, aos conceitos, as palavras fundamentais. Somente se as compreendermos, poderemos entender o caminho trilhado pelo filósofo e, a partir disso, começar a trilhar o nosso próprio. Ao mesmo tempo, quando dialogamos, estamos fazendo política, estamos falando sobre nossos pontos de vistas, nossas opiniões e julgamentos sobre o mundo e, por conta disso, é preciso sempre estar atento ao que dizemos e a maneira como dizemos. Afinal, não estamos dizendo palavras soltas, mas sim transmitindo uma mensagem que representa todo um pensamento nosso, toda a nossa linguagem e, por conseguinte, todo nosso universo.
Referência
CHAUÍ, Marilena. “Convite à Filosofia”.